terça-feira, 25 de maio de 2010

CARTA DE UM ANGOLANO NO ESTRANGEIRO



Partimos para a pedreira
Bem sabes que não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos,
Partimos para novamente sermos os contratados
E os explorados
Para sermos os sem eira nem beira

Mão de obra barata, partimos
Para construirmos e edificarmos
Com a força dos nossos braços vigorosos
E dos nossos peitos musculosos
Os prédios, as estradas, as pontes...
Em terras alheias, terras distantes

Partimos
Bem sabes que não é isto que queríamos
Tu que sonhaste com doutores e engenheiros
Agora tens-nos carpinteiros e pedreiros
A desenvolver países estrangeiros
Países dos outros

Partimos para sermos espancados
E levarmos bofetadas
Dos cabeças-rapadas
Partimos para sermos desdenhados
E chamados com desprezo, pretos!
Nestes lugares longínquos, lugares incertos

Partimos, mas não queríamos partir
Lá no Menongue queríamos construir
Os hospitais, as escolas, as pontes...
Lá queríamos erguer um arranha-céus
Para então gargalharmos desafiantes
Os brancos europeus
(Mas lá no Menongue, não aqui em Portugal
Que isto nos faz sentir mal)

Partimos
Bem sabes que nos forçaram a partir
Fugimos
Bem sabes que nos forçaram a fugir
Mas não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos

O que nós queríamos
O que nós desejávamos
É construir uma ponte
E uma auto-estrada gigante
Que unisse os corações dos angolanos,
É isto que desejamos todos estes anos

Partimos
Mas bem sabes mãe, não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos!

Décio Bettencourt Mateus - Escritor Angolano -in "A Fúria do Mar"

4 comentários:

  1. Já conhecia a cata, mas foi bom relê-la.

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  2. Carlos,

    Às vezes esquecemo-nos, (ou) nem reparamos, (ou) se reparamos nem queremos saber, (ou) até gostamos, do sofrimento dos outros.

    Um abraço

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  3. Teresa: vim conhecer seu interessante espaço. Concerteza voltarei mais vezes. Agradeço sua visita à Mulembeira. Espero volte mais vezes. Agradecido pela postagem desta carta.

    Kandandu (abraço)

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  4. Décio,

    O prazer foi todo meu!

    ... E obrigada por me deixar publicar este poema...

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