quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Se os Tubarões Fossem Homens - Bertold Brecht



Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adoptariam todas as providências sanitárias possíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Levar-se-ia os peixinhos a pensarem que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo, os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que se entendam uns ao outros. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões. A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também professariam uma religião.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um bocadinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmo obteriam assim, com mais regularidade, bocados maiores para devorar. E os peixinhos maiores que detivessem os cargos velariam pela ordem entre os peixinhos mais pequenos, para que estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante.
Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

2 comentários:

  1. Cara Teresa Fidalgo
    saindo do mar, colocando pé em terra firme, embrenhando-nos na sociedade dos mamíferos primatas, especificamente numa espécie que dá pelo nome de Homo Sapiens, deparamo-nos com uma selvajaria mais feroz do que a dos tubarões, pois tremendos gorilas, permanentemente esfomeados de poder, a rebentar de prepotência e egoísmo, a tudo tentam deitar a sua mão felpuda e medonha, não se satisfazendo com o muito que já têm, obtido muitas vezes a derrubar a floresta, comendo o pouco que os macaquinhos têm e os próprios macaquinhos. Houvesse uma força superior, fornecida pelo deus da floresta, que dizem existir, que unisse os macaquinhos todos como um só, e os transformasse numa poderosa energia, e os gorilas seriam extintos. Mas esse deus nunca mais se revela e os macaquinhos permanecem manietados, porque ainda não perceberam que, no fundo, a força dos gorilas não reside nos gorilas, mas nos macaquinhos.
    Se os peixinhos conhecessem a realidade dos macaquinhos, passariam a ter maior consideração pelos tubarões.
    Briosas saudações.

    ResponderEliminar
  2. Poeta do Penedo,
    Para já, ao que parece, no mar vive-se bem... pior se viveria se os tubarões fossem homens!

    ...o texto que apresenta poderia bem ser uma continuação do de Brecht, ou uma adaptação!...
    Bem vistas as coisas...

    Retribuição das briosas saudações

    ResponderEliminar